segunda-feira, 25 de maio de 2015

Cometa Austin (Entrevista com Márcia Denser)

PEQUENA SABATINA COM MÁRCIA DENSER
Por Fabrício Brandão
Revista Cultural Eletrônica
Leveiros
Fabrí­cio Brandão & Leila Andrade 
Entrelinhas  Desengavetando expressões, um mundo novo de caras e formas ganha corpo aos olhos e sentidos daqueles que devoram bem mais do que a si mesmos. Seja em palavras, imagens e outros tantos signos, a cultura fascina por suas proporções ilimitadas. Entre caminhos e palavras, a vida pulsa nas revelações urgentes da alma.
Há o gosto especial de se ler o mundo perscrutando as mentes de leitores e escritores. Talvez resida aí o trunfo especial da literatura. Afora o poder sedutor da fantasia, muitas vezes apoiada por instigantes recursos de sugestão, atrai saber que uma boa dose de lucidez também se faz necessária e, como tal, é capaz de proporcionar outros ambientes de reflexão.  Mas o deitar de olhos lúcidos sobre um universo de coisas possíveis está longe de se concretizar quando se faz a mera crítica pela crítica, via inócua de observações. O criador que pretende debruçar-se sobre a realidade de seu tempo com propriedade não foge ao flerte com aspectos históricos, sociais e políticos, e faz destes elementos incisivos de sua argumentação. É instigante, por exemplo, perceber nas letras de gente como Márcia Denser a noção apurada de que um autor não negligencia questões atinentes à sua época. Tudo amalgamado num sentimento amplo de percepção de si e do outro. E é nesse ambiente que a autora parece flutuar por sobre densidades da alma e do corpo humano. Sua veia contista revela um domínio preciso da construção narrativa, transportando-nos a uma esfera, na qual personagens e suas sinas são habilmente retratados em meio à complexidade de seus recortes psicológicos.

Não são poucos os ofícios assumidos em toda a trajetória percorrida pela autora. Além de se dedicar à literatura como escritora e pesquisadora, Márcia também é jornalista e possui mestrado em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo. Dentre seus livros, figuram Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora/Tango Fantasma (Global, 1986, Ateliê, 2003, 2010, 2ª edição), A ponte das estrelas(Best-Seller,1990), Caim (Record, 2006) e Toda prosa II - obra escolhida(Record, 2008). Tem obras traduzidas em diversos países e dois de seus contos fazem parte do livro Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi. Sua coluna no site Congresso em Foco, além de voltar as atenções para o panorama político brasileiro, revela-nos um olhar aguçado sobre a realidade de nossa continental nação. Entre uma atividade e outra, Márcia Denser recebeu a Diversos Afins para uma breve conversa, na qual estão demarcados aspectos cruciais de sua condição criativa e outros pontos do desafiador e complexo mundo das palavras.
Márcia Denser
Foto: Marcos Issa


DA - Chama atenção na construção narrativa de alguns de seus contos a precisa articulação entre o clássico e o moderno. Em que medida a fusão desses dois eixos demarcam o seu fazer literário?

MÁRCIA DENSER - A narrativa só se constitui literária - isto é,  em grande arte - quando opera a junção (ou articulação) dos paradoxos: clássico e moderno, sagrado e profano, sublime e ridículo, etc. É isto que causa impacto, espanto, estranhamento e resulta na originalidade do texto literário. A medida ou dosagem desta fusão eu não sei, digamos, quantificar racionalmente. Este breque eu não premedito. Este pequeno "milagre" simplesmente acontece enquanto escrevo a partir da memória das mãos.


DA - Acredita que escrever aponta para um sentido de redenção?

MÁRCIA DENSER - Como a literatura incomoda, perturba, diz aquilo que "você tem horror de ouvir”, ela está mais pra Danação! Quanto à redenção - no sentido de sublimação, purgação de paixões - deixo pro teatro grego, Hollywood e os livros de auto-ajuda.


DA - Seu conto Cometa Austin, além de ser um marco pessoal, pois rememora a sua primeira oficina literária, revela muito mais do que perspectivas de construção textual. Há ali um duelo de palavras, verdadeiro jogo de tensões entre a mestra e seus orientados. O que dizer da angústia da criação?

MÁRCIA DENSER - Bom, escrevi este conto em 40 minutos (o tempo do exercício). Ele já saiu praticamente pronto (esta a diferença do escritor experiente do novato: ele incorpora a técnica ao conteúdo). Então, sob pressão (de tempo) e intensa emoção (estava interessada no cara que descrevia, muito interessada), talvez isso reflita a tal "angústia da criação". E a coisa "transcendeu" até meus propósitos conscientes e virou literatura! Como dizia Mae West: quando sou boa, sou ótima, mas quando sou má, fico melhor ainda!


DA - É cada vez maior o número de pessoas que se atiram ao ato de escrever, ainda mais com o advento das perspectivas digitais. No entanto, parecemos distantes de poder atestar a presença de uma nova geração de criadores consolidada literariamente e que, por esta razão, venha se tornar referência algum dia. O que você pensa sobre isso?

MÁRCIA DENSER - Sim, há muita gente escrevendo, a escrita digital e a internet abriram muito espaço para isso. Mas o espaço é ilusório, porque se trata de tempo. Senão, vejamos: de acordo com a teoria literária geracional, gerações novas de escritores acontecem a cada 30/40 anos, a última, portanto, foi a de 90/2000: Marçal Aquino, Nelson de Oliveira, André Santanna, entre os melhores. E onde também surge Marcelo Mirisola, distanciado já como escritor genial. Desde, então, nada é compasso de espera. É preciso que as pessoas amadureçam, se revelem como escritores incontestáveis, com uma produção continuada e representativa, única entre os demais. 

Entre meus artigos, eu falo da minha geração (anterior às de 90/2000) de 70/80 onde, dos quatrocentos e tantos autores inéditos que publicaram em livro (isto é fato, de acordo com pesquisa), só restaram 27 - incluindo os mortos, que são 7, portanto, 20 escritores vivos, a saber: Antonio Torres, Caio Fernando Abreu (+), Deonísio da Silva,  Hilda Hilst (+), Ignácio de Loyola Brandão, Ivan Ângelo, João Antonio (+), João Ubaldo Ribeiro, João Gilberto Nöll, João Silvério Trevisan, Luiz Vilela, Luís Fernando Veríssimo, Márcia Denser, Marcio Souza, Moacyr Scliar (+), Nélida Pinõn, Paulo Leminsky (+), Roberto Drummond (+), Rubem Fonseca, Raduan Nassar, Reinaldo Moraes, Roniwalter Jatobá, Sonia Coutinho, Silvio Fiorani, Sérgio Sant’Anna, Silviano Santiago,  Wander Piroli (+).

Bem, eis os fatos. Não existe "achismo" nessa questão. E a universidade está de olho, pois é ela, em primeira e última instância, que determina pela pesquisa quem vai e quem fica.


DA - Mas eis que há quem conteste veementemente o papel das universidades tanto no quesito formação de autores quanto numa possível via de aproximação com o público em geral. A questão aqui não seria um tanto sistêmica?

MÁRCIA DENSER - Não é função da pesquisa acadêmica nem a formação do autor (exceção talvez dos EUA que têm uma tradição anglo-saxã) nem a difusão para o público, salvo como consequência da pesquisa acadêmica. Mas a avaliação, reconhecimento e a consagração do autor para a posteridade - um trabalho de longuíssimo prazo. Isto não é sistêmico, é real, a universidade brasileira existe precisamente para isso. Aliás, ela precisa dum tempo de avaliação do mesmo, inclusive para ir acumulando documentação ao processo, etc. Só dando um exemplo: autores reabilitados no presente (caso do Sousândrade, etc.) podem "desalojar" elementos consagrados no passado, mudando assim todo o cânone. O passado modifica o futuro e vice-versa. Pode parecer complexo, mas é isso aí. "Faculdade de escritor" é algo que me parece piada. E ruim. Tipo pega-trouxa.

Ainda sobre a Universidade que Formaria Escritores (com título de que – Bacharel? Mestre? Doutor?): ela não o faria de graça, certo? Aliás, cobraria uma nota e para o quê? Para o que ela não pode ensinar, nem você pode aprender? Mais um péssimo sinal desses tempos puramente mercantilistas. Talento, originalidade, um ofício que se abraça por não ter opção, por vocação para a infelicidade (como bem definiu Simenon), menos para ganhar dinheiro, porque neste caso Literatura como Arte já terá fracassado. O dinheiro vem, é claro, com a profissionalização, mais tarde. Mas isto é outra história.  


DA - O autodidata é um tipo perigoso para a literatura?

MÁRCIA DENSER - Para a literatura, o autodidatismo não é necessariamente perigoso. Posto que facilmente desmascarado, só é perigoso para o próprio autoliterato. Em geral, com a difusão das disciplinas acadêmicas, a internet, a necessidade da aquisição duma educação cada vez mais especializada em função da própria sobrevivência, tudo isso mandou o "autodidatismo" para o espaço.


Foto: Marcos Issa

DA - Podemos afirmar que temos uma crítica literária cumprindo efetivamente seu papel no Brasil?

MÁRCIA DENSER - A rigor, em tempos mercantilistas como os nossos, a função crítica recua em nome dos interesses do mercado editorial; confunde-se pato com jumento, ocorre a consagração de mediocridades inacreditáveis, como os casos extremos de Merval Pereira na ABL, Bruna Surfistinha e o nunca demais lembrado Paulo Coelho, donde layres ribeiros, maitês proenças da vida, os picaretas todos da auto-ajuda e da auto-exposição, as fórmulas para vencer na vida, para trocar o modess mais rápido, para ficar rapidinho milionário, para dar o cu sem culpa.

Crítica e criação são os dois lados da mesma moeda - até porque a alta literatura é sempre crítica e a crítica, quando de alta qualidade, cria a exegese de autores e obras. Temos, sim, grandes escritores e grandes críticos, mas estes se diluem em meio à mediocridade massiva, corrosiva, letal. Contudo, ainda que diluídos, a comunidade literária (escritores, leitores, críticos, editores) sempre sabe, em qualquer tempo, quem é quem, independente do mercado. Pode apostar.

A coisa reside naquela polêmica de "O Silêncio dos Intelectuais", debates e livro organizados por Adauto Novaes da USP - que questiona a própria existência, hoje, do chamado "intelectual engajado e eclético" - a exemplo de Sartre de 40 a 60, que, na imprensa, era chamado a opinar sobre tudo, quando agora o que se impõe, pelo menos nos jornalões, muito filhadaputamente, é o chamado "especialista" - bem na linha do pensamento da ultra-direita dominante. Os neocon argumentam que se o sujeito não é especializado, não tem competência para opinar. A polêmica, no fundo, é entre "universais" e "nominalistas". Os primeiros defendem que existem "ideias universais" na cultura, que são patrimônio de toda a humanidade, os segundos (a direita) dizem, “grosso modo", que tudo o que existe é o nome que se dá às coisas.

Só que "palavras" são só palavras, se prestam a tudo, não passam de moedinhas de troco, precisam possuir o peso do "sentimento" e das "ideias vivas", para possuir valor e substância, do contrário, não passam de ideias vazias, isto é, letra morta. Esta também é uma discussão colocada pela esquerda. 


DA – Seus artigos revelam um olhar extremamente incomodado com os aspectos políticos, sociais, econômicos e culturais do Brasil. Você crê na superação de algumas de nossas mazelas?

MÁRCIA DENSER - Corrigindo o verbo, diria que é "um olhar extremamente preocupado" com meu país, o Brasil. Não acha que é muito natural? Superação? Claro, desde que todos façam o mesmo - se preocupem e façam algo por seu país. Quer dizer, o nosso. Ou vamos cruzar os braços e esperar que outros façam?


DA - O que você não endossa nessa coisa toda a que chamam de pós-modernidade?

MÁRCIA DENSER - É difícil endossar qualquer coisa dentro do sistema teórico que embasa a pós-modernidade (e que "explica" a realidade), que é a lógica cultural do Capitalismo Tardio. Tudo nela se baseia no mercantilismo. Segundo Jameson, hoje, a imagem é a mercadoria e é por isso que é inútil esperar dela uma negação da lógica da produção de mercadorias. É por isso também que toda beleza (estética) hoje é meretrícia e que todo apelo a ela, no pseudo-esteticismo contemporâneo, é uma manobra ideológica, e não um recurso criativo. 

DA- Essa noção de estética atrelada vigorosamente a ditames mercadológicos não nos atira ao jogo perverso dos determinismos? Onde vislumbrar uma criação verdadeiramente autônoma?

MÁRCIA DENSER - Sim, isto é o que consta nas formulações teóricas e na realidade do dia-a-dia, contudo há uma corrente universal subterrânea vinda do passado e orientada para o futuro que desconsidera as condições passageiras objetivas, características desta fase, deste momento histórico. Não basta que o ultra-neoliberalismo (leia-se Tea Party) tente destruir os ideais humanos, tampouco que os teóricos nos digam que é o "fim das meta-narrativas" (Lyotard), entre tantos finais "deterministas" (da História, da Arte, da Política) - tão convenientes para os ultra-ricos, senhores do mundo - até porque a ideologia dominante nada mais é do que "a ideologia das classes dominantes". Porque a idéia é exatamente petrificar "ab eternum"  as suas (deles) condições materiais e poder. Que não servem para a humanidade como um todo, tampouco para a civilização, ergo a literatura como grande arte. Quanto à cultura, esta é cumulativa e probabilística. NADA escapa à cultura. Contudo, sou pela tese do filósofo Ivan Bystrina, de que esta também é regida pelos Universais - leis imutáveis que existem desde sempre.


DA - Em seu ofício literário, há alguma temática específica que lhe persegue, nunca antes explorada, e sobre a qual gostaria de se debruçar?

MÁRCIA DENSER - Não existem temas (assuntos) não explorados em literatura, até porque ela é empresa de conquista verbal da realidade (vide Cortázar) que, aliás, se consumou já no século 19. Parafraseando Faulkner, os temas já foram esgotados por Homero e Shakespeare, então, a renovação é formal - é como se diz a coisa, e não o quê se diz - o estilo original e único do escritor. Se ele for de primeira, muda toda a literatura.


DA - Afinal, por que escrever?

MÁRCIA DENSER - Realmente, por quê?

Foto: Paulo Neves
COMETA AUSTIN

Márcia Denser


São dezessete pessoas a escrever nesta sala, dezesseis das quais me descrevem porque sou a professora-escritora-que-lhes-passou-o-exercício, enquanto eu descrevo Austin (claro que não se chama Austin, mas é que ele lembra aquele personagem alaudista de Cortázar, chamado Austin, e também o cometa Austin que a 25 de maio passou por São Paulo, cruzando o paralelo 23, latitude sul e passarão milênios até retornar) uma trinca cujas conexões lógicas me escapam, suspiro tragando sofregamente o 14º cigarro da noite pensando que este maço vai já e já para o brejo contando as pontas que restam (ou despontam) molemente do maço.

Por isso de uma forma que me é indizível (senão não estaria tentando dizê-lo) eu já sabia que o sortearia, que seria ele, mesmo antes de desdobrar o papel e abrir e ler o nome, que a mim caberia descrevê-lo, mesmo porque cartesianamente falando não posso descrever a mim mesma pelo lado de fora, sem contar que há muito passei da idade de imitar Clarice Lispector e dos mata-borrões.

Mas acontece que são quinze porque embora supostamente Austin também me descreva é o único a não observar o, digamos, objeto da composição como manda o bom senso e as regras elementares da redação.

Mas não. E não é o fato de saber-se observado com insistência por mim, a mestra, a escritora, porque sou a dona à sua frente e Austin sabe o suficiente sobre mulheres a ponto de não precisar vê-las, basta sorrir e pronto e chega.

Austin deve ter trinta anos – esta idade limite antes de ser o que se pretende e depois de ter sido o que se pressupõe, quando se supõe inatingível, num patamar de infinitas possibilidades gasosas que não mais se liqüefazem tampouco se solidificam como todo rabo de foguete, é sabido – está em qualquer putoroscópio.

Por isso tudo me leva a crer que Austin tenha trinta anos há muito tempo, tanto quanto as pernas cruzadas em elegante tensão e índigo blue; aquelas meias brancas de quem não tem problemas de lavanderia, e sapatos da moda que se trocam aos pares todos os sábados, a camisa de seda estampada e penso, é aí, mas engato a ré e acerco-me da barba (e o verbo é risível) porque uma barba cerrada embute a boca entre o queixo e o bigode, recolhendo as feições para o fundo da fisionomia (ia dizer galáxia, a coisa deve ser contagiosa) submerge o rosto na sombra, tão absorto este Austin, a escrever aplicadamente num caderno ginasiano em homenagem à professora/escritora, tão alheio, este Austin, à mulher à sua frente, ao que deveria, se é que está mesmo a descrever-me.

Os olhos são conjecturas por detrás de uns óculos com aros dourados e do ar intelectual e da barba e quantas máscaras oculta este rosto presumivelmente aos trinta anos? E o advérbio é outra rasteira, pois a razão de fixar-me nessa idade, os tais trinta anos, está no fato de ser a única coisa visível para mim que o observo com irritante insistência há quinze minutos e duas ou três perguntas sem resposta na alma.

Naturalmente escrever para Austin deve ser muito importante, ainda que devesse olhar o que descreve, mas obstina-se em ocultar-se por detrás de tanta concentração, fixando o vazio, sem olhar para frente, para fora, para mim. Súbito se detém, a caneta em suspenso, e retorna furiosamente à carga, perseguindo o papel.

E você a julgar-se inapreensível, Diana Marini, mas me faço de surda fingindo examinar as joaninhas estampadas na camisa de Austin, enormes Marias Joanas pernejando castanhamente sobre a seda branca – posso cheirá-la, apalpá-la, rasgá-la com os olhos. De longe. A anos-luz desse Austin.

E aí está você, Diana Marini, de frente para trinta pares de olhos, de repente mais sábia e mais triste do que eles, de que terá adiantado tanta previsão se afinal você está dançando a mesma música insensata? Que fazer, Austin? Além de incorrer numa derradeira frase de efeito, acender o último cigarro e deixar-se olhar – dar-lhes de frente todo o mapa da cara para que a aprendam de cor.

Foto: Paulo Neves




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