segunda-feira, 20 de abril de 2015

Descompasso na Educação

Sandra Almeida é professora e diretora cultural da ONG Moreninha - MA
por Profa. Sandra Almeida

Professores de São Luís e São Paulo analisam a realidade educacional brasileira

De acordo com pesquisa realizada pelo IBOPE – 2013/2014, 62% dos alunos que terminam o Ensino Médio e chegam à Faculdade, não estão totalmente alfabetizados e, 90% desses mesmos alunos não têm o conhecimento mínimo esperado para o exercício da vida acadêmica.

Mediante a realidade que assola o cenário educacional brasileiro, professores de São Luís e São Paulo, analisam os motivos que afetam o processo ensino- aprendizagem, nas redes estadual, municipal e privada, além das conseqüências advindas das políticas públicas voltadas para esse contexto e que cumprem, apenas, um papel social.

Considerando o baixo rendimento acadêmico dos alunos que chegam à universidade via rede pública, o Mestre e Professor de Gestão Financeira e Gestão de Projetos do Curso de Administração de Empresas da UFMA e FACEM – São Luís - Ricardo Dugaich, afirma que a situação é notória em sala de aula, considerando-se o despreparo dos alunos - a falta de domínio mínimo desejado, em cálculos simples, leitura e escrita - para um bom aproveitamento no curso superior. “A má condução no ensino Fundamental e Médio e a necessidade das Faculdades de preencherem vagas, torna essa realidade mais evidente”, explica.
Ricardo Dugaich, professor de Gestão Financeira e Gestão de Projetos do
Curso de Administração de Empresas da UFMA e FACEM – São Luís
Em decorrência das mudanças políticas e históricas de ordem mundial, a Escola brasileira também trilha um caminho que a transforma. Da condição de aparelho responsável pela formação integral do educando, em sua essência, e, enquanto cidadão, sob uma visão conservadora, a Escola passa a contemplar, políticas públicas, geradas por uma ideologia “progressista”, mas que ao longo do caminho perdem sua principal característica e assumem outra tarefa.
Bernadete Carbonari, professora de Didática Geral de Pedagogia da FMU
“Hoje a função da Escola mudou. Ela é agente de função social. E, como agente de função social, muito se perdeu. O que vivemos atualmente, nas universidades, nada mais é que o reflexo de uma mudança e de uma postura educacional político-filantrópica, aliada ao aumento do tempo da permanência do aluno na escola, tornando-o dependente do sistema, assim como, sua família, por conta dos programas sociais”, esclarece Bernadete Carbonari, Professora de Didática Geral e Orientadora de estágio obrigatório, do curso de Pedagogia da FMU - São Paulo - e completa “os professores precisam de um olhar renovado sobre a sua profissão e sobre sua remuneração. Nada substitui o trabalho de um bom professor, mesmo com a precariedade da escola e do sistema.”
Ainda sobre essa questão, o professor Ricardo Dugaich reforça “infelizmente, a Escola tornou-se filantrópica, sem qualquer sustentação acadêmica ou pedagógica, nas redes públicas de ensino, transferindo para as instituições de curso superior, a responsabilidade de abrigarem alunos sem preparo”.

Na rede privada, segue-se o caminho inverso e a maioria das escolas, prima pelo chamado “ensino tradicional”, com o intuito de treinar jovens para o ingresso no curso superior, subjugando-os ao acúmulo de conteúdos, o mero preenchimento de livros, a reprodução sistemática de fórmulas e conceitos, sem qualquer significado ou relação com a vivência da criança ou adolescente. Nesse caso, o aluno deixa de ser o construtor e passa a ser um simples reprodutor do conhecimento previamente determinado pela instituição, de acordo com sua tendência política.

A necessidade de mandar alunos para a universidade, liderar o ranking de melhor escola pós ENEM, de atrair alunos para o Ensino Médio e formar turmas numerosas - os chamados “Terceirões” - são algumas justificativas para essa sobrecarga que, de acordo com os professores Ricardo e Bernadete, não garantem solidez no quesito “conhecimento”.

“Não existe nenhuma garantia de apropriação do conhecimento”, afirma Ricardo Dugaich e Bernadete Carbonari complementa “não há garantias, apenas justifica-se o investimento da família.

Diante desse descompasso educacional brasileiro, a situação assume contornos mais graves, na Universidade pública ou privada, tanto para os alunos, como para os professores.

Os hiatos que se estabeleceram durante todo o processo educativo de crianças e jovens, agravados por mudanças ideológicas e políticas, acabam por comprometer negativamente o movimento natural do ensino acadêmico que não consegue atingir seus objetivos, principalmente no que diz respeito ao preparo dos alunos para o desenvolvimento de pesquisas em todas as áreas.
Instaura-se aí, para os professores, o desafio de buscar alternativas que lhes permitam atingir seus objetivos.
Para o professor Dugaich, as dificuldades apresentadas no curso superior são resultantes de uma base de ensino fragilizada.

“O problema que hoje sofremos vem da base do ensino. O sistema de cotas está aí para contemplar e dar números a esse fato. A falta de sustentação psicopedagógica e estrutural nas redes públicas de ensino acaba obrigando as instituições a abrigarem alunos sem nenhum preparo para o curso superior. É mais uma ação filantrópica”, finaliza.

Professores reconhecidos e motivados, são para a professora Bernadete, fatores importantes para uma possível mudança desse quadro.

“Só teremos a possibilidade de uma mudança, com professores motivados, valorizados e bem remunerados, de sorte que se justifique o empenho para a pesquisa não só científica, mas principalmente o que envolve o processo ensino-aprendizagem”, conclui.
Professores buscam educar-se para a nova realidade do Ensino 
e suas novas responsabilidades.