segunda-feira, 14 de junho de 2010

João Carlos Figueiredo

Uma travessia solitária de 100 dias pelo Velho Chico!

O que move um homem a percorrer solitariamente durante cem dias, numa frágil canoa o mais fantástico dos rios do Brasil?

A equipe da Meta Ambiental sente-se privilegiada de poder repercutir um projeto ousado de João Carlos Figueiredo que expõe as belezas e mazelas do rio São Francisco, um rio brasileiro que nasce na Serra da Canastra no estado de Minas Gerais, a aproximadamente 1200 metros de altitude, atravessa o Estado da Bahia, fazendo a divisa ao norte com Pernambuco, constituindo a divisa natural dos estados de Sergipe e Alagoas. Por fim, desagua no Oceano Atlântico, drenando uma área de aproximadamente 641.000 km² e atingindo 2.830 km de extensão. O "velho Chico", como é carinhosamente conhecido, foi percorrido em 100 dias metro a metro, e o registro dessa travessia transformou-se em livro a ser lançado em breve.

JOÃO CARLOS FIGUEIREDO por ele mesmo:
"Ambientalista, poeta, pensador, espeleólogo, montanhista, mergulhador, fotógrafo amador, amante da Natureza, e agora canoista, gosto da vida como ela é, repleta de surpresas e relacionamentos, às vezes complexos, outras, deliciosamente simples e diretos, como devem ser o amor e a amizade. Navegar é preciso... nas águas do velho Chico! Quero percorrer seus caminhos, reviver suas lendas... proteger o seu povo... defender suas águas e cuidar de sua biodiversidade..."

JOÃO CARLOS FIGUEIREDO: Quero, primeiramente, agradecer-lhes a oportunidade de manifestar minha opinião a respeito da situação do meio ambiente no rio São Francisco. Depois de um ano inteiro dedicado a esse projeto sinto-me à vontade para discutir as imperativas questões que afetam um de nossos mais importantes complexos hídricos, seja pela sua dimensão continental, seja pela população que vive e depende de seus recursos e das grandes hidrelétricas que abastecem todo o nordeste brasileiro. Bem, vamos às questões...

META AMBIENTAL: Primeiramente, a Meta Ambiental gostaria de parabenizá-lo pela iniciativa do Blog Meu Velho Chico. O que na época te impulsionou a iniciar esta aventura de percorrer todo o Rio?

 
JOÃO CARLOS FIGUEIREDO: Eu já praticava atividades de aventura ecológica há dez anos. Nesse longo período tenho assistido indignado às mais brutais agressões ao meio ambiente, seja ele marinho, subterrâneo, em nossas montanhas ou nos rios. Porém, em fins de 2008 tive a oportunidade de participar de uma expedição pela Chapada Diamantina justamente na época em que grande parte de seu território era consumido pelas chamas de incêndios criminosos. Decidi que era o momento de eu me engajar definitivamente às campanhas e lutas preservacionistas. A escolha do rio São Francisco foi uma conseqüência natural pela sua exposição à mídia, tanto com relação à destruição avassaladora de seu meio ambiente, como pela questão polêmica da transposição de suas águas.

META AMBIENTAL:  A repercussão do projeto de percorrer o Rio São Francisco, da nascente até a foz, recebeu a devida atenção da mídia na sua opinião? Por que?

JOÃO CARLOS FIGUEIREDO: Infelizmente, eu não tive a atenção esperada da mídia. Afora entrevistas em emissoras e jornais locais, eu fui completamente ignorado pela grande mídia nacional. Eu reputo esse desinteresse ao descaso com que é tratado o meio ambiente de maneira geral, e ao desconhecimento de meu trabalho pelos principais veículos de comunicação. Enviei dezenas de emails às emissoras nacionais, mas de nenhuma recebi resposta. Mesmo depois de minhas entrevistas às sucursais regionais, que eu esperava ser um caminho para que as portas da comunicação se abrissem para mim, nada aconteceu.

META AMBIENTAL:   Neste percurso você se deparou com a questão do grau de preservação das nascentes e afluentes do Velho Chico, como estão elas? E o Rio propriamente?

JOÃO CARLOS FIGUEIREDO: A região da Serra da Canastra, dentro do Parque Nacional, está razoavelmente controlada e não há sinais de fontes de contaminação das águas ou de extinção de seus primeiros afluentes, todos em uma área típica de Cerrado. O controle de acesso às trilhas dentro do parque é satisfatório.

O mesmo não acontece com o restante do rio e de seus afluentes. A quase totalidade dos municípios ribeirinhos despeja seus esgotos diretamente nos rios. Dizem que está nos planos do governo federal o tratamento de esgotos em 129 dos seus 500 municípios. Infelizmente, dos 25 municípios que visitei, apenas Cabrobó está tratando seus esgotos. Existem placas de obras do PAC em algumas cidades, mas todas com datas vencidas e obras paralisadas. E ainda permanecem muitas fontes de poluição em toda a extensão do rio: resíduos industriais, agrotóxicos e lixo urbano. Algumas indústrias ainda se utilizam de carvão vegetal como combustível de caldeiras e fornos, estimulando ações criminosas de desmatamento.
O rio São Francisco e seus principais afluentes sofrem a ação do desmoronamento freqüente de barrancos, alargando seu leito e tornando cada vez mais rasa a calha desses rios. A conseqüência disso é um aumento da evaporação, a redução da população de peixes e menos navegabilidade do rio em todo o trecho desde Pirapora até Juazeiro. Hoje, a eclusa de Sobradinho permanece quase todo tempo inativa por falta de embarcações que trafeguem nesse percurso; apenas um barco, o Jurity, ainda passa a cada dois meses pelo trecho Januária-Juazeiro e se utiliza da eclusa.

A pesca predatória é outro grave problema do Velho Chico; além do número excessivo de pescadores profissionais, principalmente no médio e submédio São Francisco, utiliza-se muito de redes de arrasto de 200 a 500 metros de extensão, com danos irreparáveis ao substrato e às espécies mais ameaçadas.

Além disso, o desmatamento continua causando a extinção da fauna em grandes extensões das margens do rio. Até mesmo as lagoas marginais, verdadeiros berçários do Velho Chico e afluentes, aos poucos vão secando, ou se isolam do rio, pela redução do volume de águas e o controle da vazão do rio nas represas.

A construção de novas barragens dará o golpe final nas espécies migratórias. Estão previstas três barragens no baixo São Francisco e uma na região de Pirapora. Além disso, existem dezenas de projetos de PCH's (Pequenas Centrais Hidrelétricas) em vários afluentes do São Francisco, como o rio Correntes e o Carinhanha, no oeste baiano, que também afetarão gravemente as populações ribeirinhas.

META AMBIENTAL:   Na sua opinião, a transposição do rio, um projeto polêmico do Governo Atual, começou de forma correta e participativa? Vai beneficiar quem exatamente?

JOÃO CARLOS FIGUEIREDO: Tive oportunidade de visitar as obras do canal norte da transposição, perto de Cabrobó; há evidentes interesses políticos por trás dessas obras, que movimentam bilhões de reais e geram milhares de empregos. No entanto, o fator "day after" preocupa até mesmo os políticos que apóiam a iniciativa do governo federal: o que se fará com toda essa população de empregados, vindos de toda parte, quando a obra terminar? Mas o que chama a atenção é o impacto na região de onde será desviado o rio: os canais passarão por áreas povoadas, hoje abastecidas por carros-pipa, e ninguém fará uso dessa água na região!

Muitas cidades do submédio São Francisco não têm sistemas eficientes de abastecimento e de tratamento da água potável, e são usuárias da "indústria" de carros-pipa. Mesmo Petrolina, Santa Maria da Boa Vista, Orocó e Cabrobó, apenas para citar algumas, ainda possuem áreas urbanas com graves problemas de abastecimento de água. Se olharmos para o interior, toda extensão do rio sofre com os problemas de irrigação das suas lavouras, salvo raras exceções, como as áreas irrigadas de Petrolina e Petrolândia.

Finalmente, a aprovação do projeto de transposição não seguiu os trâmites normais e dizem que as audiências públicas foram realizadas em Salvador, sem que as populações afetadas pudessem se manifestar democraticamente. O custo desse projeto e a ausência de uma contrapartida relacionada com a revitalização do São Francisco são os últimos aspectos negativos desse projeto de transposição. O que se afirma ser um "projeto de revitalização" não passa de um amontoado de obras isoladas, sem o planejamento indispensável a um projeto dessa magnitude. Nem mesmo o valor total dessas obras é divulgado oficialmente. Diz-se apenas que "até um bilhão de reais" será liberado anualmente para isso.

META AMBIENTAL: Como está a repercussão desta questão da transposição nas diferentes comunidades que serão direta e indiretamente afetadas?

JOÃO CARLOS FIGUEIREDO: A maioria das populações ribeirinhas não tem opinião formada sobre o projeto, nem o conhece. Em Cabrobó a população está mais favorável à sua execução pois, nesses últimos três anos, houve um significativo aumento de oportunidades de emprego e um conseqüente crescimento das receitas do município. No baixo São Francisco, depois de Paulo Afonso, poucos se preocupam com a redução do volume de águas do rio. Até mesmo os números do governo são contraditórios: diz-se que a vazão média será de 26 m3/s e a vazão máxima de 127 m3/s; no entanto, o percentual sobre a vazão média do rio é de "menos de 5%"! Mas a vazão média do rio vem decrescendo a cada ano e o mar ameaça salgar as águas do rio!

Na verdade, quem fala da transposição de forma enfática são os movimentos sociais, que têm como bandeira a preservação ambiental. Mas sua influência na vida das pessoas nas cidades é irrelevante. Sua atuação está concentrada nas pequenas comunidades indígenas, quilombolas e assentamentos do INCRA.

META AMBIENTAL:  Você já deve estar ciente dos novos projetos para a área do Rio São Francisco. Agora o governo pretende implantar 2 usinas nucleares ao longo do rio, o que acha disso?

JOÃO CARLOS FIGUEIREDO: A diversificação das fontes de energia no Brasil é necessária, até para diminuir a pressão das obras de hidrelétricas sobre as nossas bacias hidrográficas. O objetivo de construir essas usinas nucleares no oeste baiano seria levar o desenvolvimento para o interior, o que é louvável. Ocorre que as usinas nucleares causam outros problemas graves, como o lixo atômico e o risco de contaminação do lençol freático.

Existem outras fontes alternativas de energia limpa, como a eólica e a solar. Ambas teriam excelentes resultados em todo o nordeste, onde o sol é abundante e os ventos, constantes. No entanto, a energia renovável do etanol é muito mais perniciosa do que a energia nuclear, em meu entendimento.

Já estamos transformando nosso país em um imenso canavial, com o objetivo de exportar o etanol. Enquanto isso, a nação que mais cresce no mundo, a China, investe fortemente na produção de manufaturas, onde o valor agregado pela mão-de-obra intensiva traz muito mais divisas para o país.

As usinas nucleares que se pretende construir estão relacionadas também à descoberta de grandes minas de urânio no interior da Bahia. Esses projetos não são recentes, mas ressurgiram no noticiário nacional devido à grande repercussão da exportação desses minérios para a China e para a Índia.

Não conheço detalhes do projeto de implantação das usinas nucleares nas proximidades do rio, nem sou especialista no assunto, mas espero que, ao contrário do que se fez com o projeto da Transposição, este deva ser exaustivamente debatido com a população e com os nossos especialistas, de forma a torná-lo suficientemente conhecido, para que uma decisão acertada seja tomada quanto à sua continuidade ou não.

META AMBIENTAL: Estas questões estarão divulgadas em seu livro? A Meta Ambiental gostaria de abrir espaço para que divulgue sua publicação e para pedidos de apoios que irá necessitar.

JOÃO CARLOS FIGUEIREDO: Sim, eu dedico muitas páginas de meu livro à discussão dos problemas ambientais, assim como também trato as questões sociais e, mais especificamente, as questões fundiárias no oeste baiano, dada a sua relevância para a situação de penúria em que vivem essas populações esquecidas das elites intelectuais.

Talvez, tratar do desmatamento na Amazônia seja mais interessante para a mídia, mas cerca de quinze milhões de brasileiros vivem na bacia do São Francisco, onde as taxas de natalidade e de mortalidade infantil são altíssimas, onde o progresso e as fontes de cultura e desenvolvimento social não chegaram, uma região que vive hoje como viviam nossos avós, quase um século atrás, cujas cidades não têm cinemas ou teatros, e a educação formal não costuma passar do primeiro grau menor, não porque as pessoas não queiram aprender, mas porque não existem empregos para aqueles que têm uma formação superior.

META AMBIENTAL: Por fim, agradecemos sua entrevista e desejamos sucesso.

JOÃO CARLOS FIGUEIREDO: Também agradeço muito a oportunidade concedida e aproveito para comunicar que meu livro já está em andamento, com cerca de 450 páginas de textos e 200 fotos, tentando retratar essa fantástica experiência que é a de conhecer um Brasil que não está nos livros didáticos, nem nas capas das revistas, e nem nos gibis!


JOÃO CARLOS FIGUEIREDO: Agradeço e aceito a oferta de divulgação de meu trabalho em seu excelente site, Meta Ambiental, pois preciso sim de apoio para a produção e distribuição de meu livro. Estou de mudança para a cidade de Alto Paraíso de Goiás, onde pretendo continuar minha luta em defesa do meio ambiente e contra a economia globalizada, símbolo desse capitalismo moderno e consumista, que eclodiu com o desaparecimento dos regimes socialistas. Não é o desaparecimento do comunismo em si que causou a explosão de consumo, mas a falta dos debates ideológicos.

Abraços a todos,
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João Carlos Figueiredo सिद्धार्थ गौतम 
Ambientalista, Canoista, Espeleólogo, Mergulhador, Montanhista
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Charge na "Gazzeta do São Francisco"
Despedida de Nêgo Dágua e a Carranca - Juazeiro, BA (charge na Gazzeta do S. Francisco)
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